Histórias Alternativas - Uma Nova Chance
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Capítulo 02: A Escolha de Uma Escritora

When we gaze at each other
The past and future suddenly connect

-= Usagi & Mamoru, Triple Dreams =-

      Cat sentou-se em sua cadeira e apoiou o ombro na escrivaninha de seu quarto no dormitório feminino, segurando um lápis em sua mão direita. Mesmo não gostando de lembrar de certas coisas que haviam acontecido em sua vida, ela gostava de saber que as pessoas continuavam lendo os livros que havia escrito há alguns anos. Era esquisito como poucos desconfiavam de que C.J.McKinnion poderia ser um pseudônimo para Catherin McKinnion, mas isso já era passado. Havia dois anos desde o lançamento de seu último livro e Cat havia jurado que seria REALMENTE o último que escreveria.
      E lá estava ela, olhando para uma folha de papel em branco e brincando com um lápis. Não adiantava... sempre que Cat dizia que iria parar de escrever, aquelas imagens voltavam à sua mente e uma voz lhe dizia que deveria escrever as idéias que vinham a todo momento. Só mais um pouquinho, só mais um pouquinho. Mas esse 'só mais um pouquinho' sempre terminava em um novo livro no qual o editor estaria morrendo de vontade de colocar os dedos pegajosos e ambiciosos. Pelo menos ela fazia sucesso. A primeira edição sempre esgotava em três semanas e várias cartas entupiam sua caixa de correio, fazendo-a se sentir um pouco feliz.
      Mas ela não queria escrever nada naquela noite. Já era outono e as noites estavam começando a ficar mais frescas e bonitas, com a lua cheia e todas as estrelas brilhando em torno dela. Por isso Cat continuava brincando com o lápis, sem escrever ou desenhar ou rascunhar nada, só deixando o papel permanecer... branco.
      Subitamente, um barulho esquisito chamou a atenção de Cat. Já passava das dez horas da noite, todas deveriam estar dormindo ou assistindo TV na sala no andar de baixo. Poucas costumavam ficar em seus quartos àquela hora, exceto ela. Foi por isso que Cat saiu de seu quarto e aguçou seus ouvidos, tentando reconhecer o barulho.
      "Parece que alguém está... digitando?", ela pensou, saindo de seu quarto e caminhando na direção do som.
      Cat parou na porta do quarto da novata e bateu algumas vezes na porta, que se abriu sozinha. Quando olhou para dentro, viu o porquê de ninguém ter atendido a porta. Tieko Aikawa estava sozinha em seu quarto, uma vez que sua companheira havia descido para assistir TV. Ela estava sentada à escrivaninha, digitando furiosamente em um laptop e ouvindo música com fones de ouvido para não incomodar ninguém... e para não ser incomodada.
      - Tieko? Com licença, a porta estava aberta e... Tieko? Tá me ouvindo?
      - Não, isso não pode estar acontecendo de novo, pensou Ami, sentando-se na cama. - falou Tieko, em um sussurro. - Sim, essa frase ficou legal.
      - Tieko? - chamou Cat, colocando a mão em seu ombro.
      - QUÊ? - exclamou Tieko, olhando para trás. - Cat... você acabou de me deixar cinco anos mais velha.
      - Desculpe, você não atendeu quando eu bati, então...
      - Ah, eu não ouvi, gomen... quer dizer, desculpe. O barulho do teclado está te incomodando?
      - Nem se preocupe com isso, só fiquei curiosa para saber quem estaria aqui em cima a essa hora. Eu estaria sendo muito chata se perguntasse o que está escrevendo?
      - Nope. Eu tive uma idéia muito boa para escrever no final de uma história que comecei em casa e decidi digitá-la antes que esquecesse dela completamente. Já ouviu falar de fanfiction?
      - Acho que já... posso?
      - Ah, claro. - respondeu Tieko, puxando a cadeira para o lado e virando o laptop na direção de Cat. - Os primeiros capítulos estão em outro arquivo. Ei... não sei o que fazer no café amanhã. Alguma sugestão?
      - Quanto de bolo sobrou?
      - Metade.
      - Hm... melhor tentar aprender a fazer panquecas, ou você estará servindo bacon com ovos, chá ou café ou chocolate amanhã.
     
- Acho que eles terão que enfrentar bacon com ovos e torradas amanhã, porque não sei fazer panquecas... ainda. - acrescentou Tieko, rindo. - Acha que eles vão ficar chateados com isso?
      - O que fez pro jantar?
      - Pizza. - respondeu Tieko, apontando para o telefone.
      - Acho que poderia fazer qualquer coisa que Arthur não se sentiria incomodado. - continuou Cat, sem tirar os olhos da tela do computador.
      - Ei... você não está querendo dizer que... ele... err...
      - Não precisa ficar com vergonha disso, Tieko. Eu vi que você gostou dele e ele de você. Então por que ficar se preocupando com isso? - ela sorriu.
      - Certo... obrigada, Cat.

***
      - Ok, querem me deixar em paz?
      - Vamos lá, Arthur. - falou Bradley, com um sorriso malicioso. - Você a convidou para sair?
      - Onde você vai levá-la? - perguntou William. - Ela faz um bolo ótimo, por sinal...
      Arthur, Daniel e Rick suspiraram, incomodados com tantas perguntas. Martin, um dos mais velhos do dormitório, ainda estava digitando alguma coisa em seu laptop, tentando não prestar atenção na 'sessão fofoca'... mas isso estava começando a ficar difícil a cada minuto - ou segundo - que se passava.
      - Vocês deveriam pensar em outras coisas. - disse Martin, sem tirar os olhos da tela do computador. - Amanhã ela vem de novo e só sabemos que ela sabe fazer bolo de chocolate. Não nego que estava ótimo, mas alguém aqui tem idéia do que vai sair pro café amanhã? E ainda temos outra coisa para nos preocuparmos... o sr. Smith se aposentou e um novo zelador vai chegar. Amanhã. Preparem-se.
      - Quem é desta vez, Martin? - perguntou Rick, sabendo que Martin recebia e-mails da coordenadoria do Instituto Fallen. Por quê? Ninguém sabe...
      - Alguém chamado Kenneth Raiden.
      - 'Thunder Kenneth'... - murmurou Daniel. - Só espero que ele seja melhor do que o sr. Smith. Não consegui me acostumar com aquele velho vindo ver se estávamos bem, como se fôssemos um bando de garotas que não sabem tomar conta de si mesmas.
      - Bom, somos seis rapazes morando em um dormitório. Ele queria ver se não estávamos trazendo nenhuma garota. - respondeu Martin, sem parar de digitar.
      - Nah. Os caras aqui só conseguem pensar no que vão comer no café de amanhã e no que outras pessoas fazem durante o dia. - disse Arthur. - Como você mesmo definiu, Rick. Duas velhinhas fofocando sobre a vizinhança.
      - Deveríamos ir dormir ao invés de ficarmos ouvindo as besteiras desses dois. - falou Daniel, bocejando e se espreguiçando.
      - Indeed. - disse Rick, subindo as escadas. - Boa noite.
      - Eu também vou. - disse Arthur. - Prefiro dormir mais cedo do que ficar acordado ouvindo esses dois.
      - Acho que é melhor continuar as minhas histórias no meu quarto. Com licença. - falou Martin, fechando o laptop. - Boa noite.
      E Bradley e William ficaram sozinhos na sala de TV, sem acreditar no que estava acontecendo. Seus olhos estavam arregaçados e uma grande gota apareceu em suas cabeças.

***
      Era bem cedo quando o barulho de uma porta abrindo acordou William. Bocejando, ele pegou o despertador e deixou a cabeça cair sobre o travesseiro quando viu que eram apenas CINCO da manhã. Não poderia ser a Tieko... ela não iria acordar ANTES das cinco da manhã só para terminar rapidamente suas tarefas de DOMINGO. Todas as meninas tinham o costume de dormir MAIS nos fins de semana e eles geralmente tinham que esperar até que elas chegassem... às DEZ E MEIA. Então ele só largou o despertador na escrivaninha, virou para o lado e voltou a dormir.
      No primeiro andar, um rapaz olhava o salão de entrada. Seus olhos verdes pareciam investigar cuidadosamente todo o local e, com os braços cruzados, mexeu a cabeça em sinal de aprovação e sentou-se no sofá da sala de TV, onde pegou um folheto do Instituto Fallen e começou a relê-lo.
      Ele havia chegado a pouco tempo em Mornington com sua irmã e estava feliz por ter conseguido aquele trabalho. Embora a mulher tenha dito 'Obrigada, Senhor' quando ele assinou o contrato, não achava que tomar conta de dois prédios onde só moravam adolescentes seria algo muito difícil. Afinal, um deles era um dormitório feminino. Claro, ele podia estar... errado.
      Depois de reler o folheto, o rapaz se levantou, deixando a mochila no sofá e tentou lembrar o que tinha de fazer ali. Como o zelador, seu trabalho era certificar-se de que os prédios continuariam EM PÉ, NO LUGAR DEVIDO, sem deixar que os estudantes os demolissem. Claro que também deveria cuidar para que os jardins ficassem limpos, aguar as plantas e consertar qualquer coisa quebrada que encontrasse dentro ou fora dos prédios. Fazer a faxina não era sua função, exceto nos feriados escolares, quando a maioria dos estudantes voltava para casa.
      - Heh... esse trabalho vai ser moleza. - ele comentou, parando perto da janela, algumas horas depois.
      Apenas para ver uma garota oriental caminhando na direção do prédio, carregando algo semelhante a uma sacola de supermercado.

***
      - Ok, Moon Fox... você tem certeza MESMO de que não há nenhum tipo de youma, bakemono ou ser extra-dimentional tentando conquistar aquela Linha Temporal? - perguntou um rapaz de feições orientais, que vestia uma jaqueta laranja e uma braçadeira com o símbolo de Vênus em seu braço direito.
      - Não acredita em mim, Firebird? - respondeu Moon Fox, apoiando o braço na mesa. - Mas eu disse que não há youmas ALI. Não há nada que eu possa fazer se um ser de OUTRA Linha decida de repente que quer conquistar aquela onde Kyn está. Aí ela vai ter que tomar conta da situação sozinha.
      - Hm... teremos que confiar neles, então. Só espero que esta história termine BEM e que tenhamos a boa e velha Kyn de Saphir de volta. - disse Aleph, quase sussurrando as últimas palavras ditas.
      - Sortudo. - riu Moon Fox. - Ela está dormindo. Você estaria morto a essa hora se ela tivesse ouvido você falar 'boa e velha Kyn'... já que é a segunda mais velha de nós aqui.
      - Acha que não sei disso? Por que acha que eu tava sussurrando? Quem sabe o que ela pode ouvir naquele sono profundo... - ele riu.
      Os três rapazes sorriram, como nos velhos tempos, quando ainda eram estudantes universitários ou vestibulandos... antes que suas vidas virassem de cabeça-para-baixo e fossem misturadas dentro de um liquidificador em uma viagem para o Japão. A lembrança da viagem fez os sorrisos saírem de suas faces e os substituiu por um suspiro de tristeza.
      - De vez em quando eu penso no que poderia ter acontecido se não tivéssemos ido para o Japão. - disse Firebird.
      - Não tivemos escolha. - disse Moon Fox. - Pelo menos no nosso caso. Fomos raptados, lembra?
      - HENRIQUE, NÃO ME FAÇA LEMBRAR DAQUELES MALDITOS PINGÜINS!!! - gritou Aleph, tremendo.
      - Ok, ok, não vou falar neles de novo. - falou Moon Fox, acenando com a mão na frente do rosto de Aleph. - Agora vê se fica calmo. Temos trabalho a fazer.
     
- Um trabalho eterno...

***
      Tieko não sabia direito o que fazer: colocar a sacola no chão, virar a bolsa para a frente de seu corpo para pegar as chaves ou apenas chutar a porta. Ou talvez as três coisas ao mesmo tempo.
      - Não, isso DEFINITIVAMENTE não é uma boa idéia... - ela suspirou, colocando a sacola no chão para pegar as chaves dentro da bolsa. - ... do jeito que eu sou, acabaria derrubando todas as coisas que comprei. Ainda bem que a Cat me disse que tinha uma loja 24-horas aqui perto onde eu poderia comprar o pó de panquecas... - e um sorriso amarelo apareceu em seu rosto, enquanto abria a porta.
      Ela sabia que era muito cedo para que qualquer um dos rapazes estivesse acordado, então tirou os tênis e caminhou cuidadosamente para a cozinha, onde esperava encontrar ovos e leite. Não era um trabalho difícil, já que preferia ficar com garotos ao invés de garotas... eles eram mais fáceis de se lidar. Tieko só não era considerada uma 'tomboy' porque usava roupas femininas, ou poderia ser facilmente confundida com um garoto.
      Tieko deixou a sacola em cima da mesa e abriu a porta da geladeira para dar uma olhada rápida, quase desmaiando quando viu a quantidade de comida instantânea dentro dela. Havia também algumas frutas e vegetais, além de sucos, mas... hm... a comida instantânea não era da mesma marca do pó de panqueca que ela havia comprado?
      - Ah... whatever. Acho que o cheiro do café vai fazer metade deles correr pela escada. - riu Tieko, fechando a porta da geladeira com um chute e carregando leite e três ovos nos braços.
      - Eu pensei que este era um dormitório masculino, garotinha. - disse uma voz masculina, vindo da porta da cozinha.
      - O quê..?! - e ela abriu os braços, assustada, deixando todas as coisas caírem. - Ah, NÃO!
      O rapaz desapareceu do lugar onde estava e uma leve brisa fez com que o cabelo de Tieko ficasse bagunçado e a obrigou a fechar os olhos. Ela ainda procurava por uma janela aberta quando o rapaz reapareceu ao seu lado.
      - Não deveria ser tão descuidada. - ele colocou o leite e os ovos sobre a mesa. - Agora, quem é você e o que está fazendo aqui?
      - Ei, isso era o que EU deveria estar perguntando! - e os olhos de Tieko ficaram grandes e surpresos.
      - Tarde demais. Melhor responder antes que eu relate isso ao diretor. - ele respondeu, sentando numa cadeira, colocando os braços no encosto. - Então?
      A garota olhou firme para os olhos verdes do rapaz, sentindo algo parecido com... déjà vu. Ela sentiu que já o conhecia antes... só não sabia de onde e... quando.
      - Sou uma caloura da Universidade Fallen. Como você já deve saber, as novatas têm tarefas a fazer pelo campus e a minha é cuidar do café e do jantar do dormitório masculino.
      - Tá, dona Caloura. Que tal me dizer o seu nome?
      - Que tal VOCÊ me dizer QUEM é você, então? - ela perguntou no mesmo tom de voz que o rapaz havia usado antes.
      - Calma aí... não precisa ficar nervosa desse jeito. - ele falou, abanando a mão lentamente na frente do próprio rosto. - Sou o novo zelador. Meu nome é Kenneth Raiden, o seu?
      - Tieko Aikawa. - ela respondeu, virando de costas para pegar as coisas de que precisava para começar a fazer o café.
      - Então todas as calouras têm que cozinhar para esses caras? Sortudos, hein? - disse Kenneth, apoiando o queixo nos braços. - Tá com a noite livre? Parece que estreou um filme novo no cinema.
      - Tenho coisas para estudar, obrigada.
      - Caramba... você é difícil de se lidar, hein?

***
      Aleph não conseguia parar de rir ao ver a cena no espelho. Aquela era justamente a reação que ele esperava que viesse de Kyn, mesmo sendo de sua correspondente naquela Linha Temporal.
      Usando roupas pesadas para agüentar o frio do quarto, ele continuava olhando por ela no Salão Prateado e na Linha Temporal para onde sua energia havia ido. Pegando um bloco de anotações, Aleph leu alguns nomes que havia escrito. Ela já encontrara dois Guardiões. Ainda haviam alguns a serem encontrados.

***
      Cat já estava acordada, olhando para uma folha de papel e segurando o lápis como se quisesse escrever algo. Sua MENTE quase ordenava que sua mão começasse a escrever e ela já não conseguia mais impedi-la disso. Deixando-se entregar sobre a cadeira, Cat iniciou o que seria seu quinto romance e, como os anteriores, 'o último escrito por C.J.McKinnion'. Isso era o que ela sempre prometia a si mesma.
      Uma promessa que nunca era cumprida.

***
      Subitamente, um barulho estranho vindo da cozinha acordou todos os rapazes, incluindo um grito feminino, como se a Terceira Guerra Mundial houvesse começado de uma vez só.
      Arthur foi o primeiro a trocar de roupa e descer correndo as escadas, tendo Daniel, Martin e Rick vindo logo atrás dele. Os outros dois ainda estavam esfregando os olhos e tentando entender o que estava acontecendo.
      - Abaixe-se! JÁ! - gritou Kenneth, jogando-se contra Tieko, quando viu um facão de açougueiro indo em sua direção. - Ei, vocês aí! Preciso de ajuda! - ele continuou gritando, quando viu os quatro correndo pela escada.
      - Tieko! Aqui! - chamou Arthur, tentando alcançar a mão dela, sem ver que um garfo estava vindo ameaçadoramente na direção de sua cabeça.
      - VOCÊ deveria tomar conta de si mesmo antes de tentar salvar alguém, Arthur! - gritou Martin, jogando sua lapiseira para interceptar o garfo. - Ei... não me olhem dessa maneira. Não posso tentar salvar alguém? - ele perguntou, olhando para os rostos atônitos de Daniel e Rick.
      - Taí algo que eu nunca pensei que viria em toda a minha vida. - disse Daniel, pulando os últimos degraus. - O Martin gritando.
      - As pessoas têm reações diferentes em determinadas situações, Daniel. - disse Rick, aterrisando ao seu lado. - Mas agora temos outras coisas com as quais nos preocupar.
      - Você está certo. - disse Kenneth. - Primeiro temos que descobrir o que raios é AQUILO. - e um redemoinho apareceu no meio da cozinha, tomando uma forma humanóide.
      Não demorou muito para que o vento tomasse a forma de um corpo feminino e eles vissem um... rosto? Que sorria malignamente para eles? Hm... eles deveriam estar dormindo. E eu devo ter tomado algo alcoólico... é, deve ter sido aquele suco de morando que tomei no almoço...
      - Saudações. Sou Kazeko.

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